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menina dos abraços

um abraço: a melhor forma do amor.

menina dos abraços

um abraço: a melhor forma do amor.

Abraços no dia.

Sexta-feira. Traz o sabor da chegada do fim-de-semana, mas traz também o cansaço absorvido de uma semana que passou. A manhã chega com o brilho quente do sol, mas chega também com um toquezinho de peso na alma. Há dias assim.

E depois, a meio do trabalho, um telefonema. Despeço-me, como sempre e, do lado de lá, aquela voz a interromper-me. "Antes de ir, deixe-me só dizer-lhe muito obrigada, menina. Deve falar com tanta gente, mas do lado de cá também podemos deixar uma palavrinha. Desejo-lhe tudo de bom e uma boa Páscoa para a menina e as suas pessoas."

Parou tudo, por instantes, e ecoam aquelas palavras. Agradecer. "Para a menina" e... "as suas pessoas". Como quem me adivinha, mesmo sem me conhecer. Como quem sabe que é assim que eu lhes chamo... A quem me é, da alma e do coração, sempre e para sempre. Como quem sabe que há dias que pedem abraços.

Parou tudo, por instantes, e inspiro e agradeço. Agradeço sempre. Porque pode haver sempre quem tenta pesar-nos na alma. Mas também há sempre quem nos abraça o dia, a vida, o coração. E, no final, são esses abraços que nos libertam de todos os pesos do mundo. Venham eles de onde vierem.

Deixar-me encontrar.

Metro de Lisboa. Sento-me e, enquanto espero, olho e observo à volta, como sempre.

Ela chega, de passos pequeninos e cansados. Talvez perto dos 80 anos. Olha-me e aproxima-se de mim, meio confusa, mas já a sorrir-me. Pergunta-me se está no sentido certo. 

- É que sabe, menina, lá fora, na rua, é mais fácil. Aqui dentro é confuso. Há muitas linhas e muitas pessoas cheias de pressa.

Sorrio-lhe.

- Sim, está no sentido certo. Pode entrar comigo e sai já na estação seguinte.

Espera junto de mim, em silêncio. Mas continua com o sorriso de ternura que me abraça e me serena de toda a pressa que nos rodeia. O metro chega. Levanta-se, olha-me de novo a sorrir-me e chega-se mais a mim.

- A menina dá-me a mãozinha para eu entrar consigo? É que sabe, menina, as pernas já não me obedecem como antes.

Sorrio-lhe. Dou-lhe a mão e caminhamos as duas em direcção ao metro. Enquanto caminhamos, aperta-me tanto a mão. Tanto. Treme, mas aperta-a forte. Como se toda a segurança que ela precisa para aqueles passos pequeninos e cansados estivesse ali, na mão que aperta tanto. São passos pequeninos e cansados, mas eu não tenho pressa. Deixei de sentir toda a pressa que nos rodeia.

Entramos no metro. Sugiro que se sente. Não quer. O tempo de viagem é curto e é-lhe mais difícil sentar-se e ter de se levantar depois.

- É que sabe, menina, as pernas já não me obedecem como antes.

Não me larga a mão. Faz aqueles minutos de viagem junto de mim, a apertar-me a mão. Sempre sem a largar. E, enquanto a sua mão aperta a minha, eu sinto que está tudo certo.

Chegamos ao seu destino. Olha-me de novo a sorrir-me e ainda a apertar-me a mão.

- Obrigada, menina. Deus a abençoe. Que tenha sempre muito amor toda a vida.

Haverá coisa melhor para se desejar a alguém?

Sorrio-lhe. Enquanto ela sai, devagarinho, aperto-lhe, em resposta, a mão que treme e que ainda aperta tanto a minha. Olha-me de novo a sorrir-me e larga-me a mão apenas quando já está do outro lado.

- Obrigada eu. – Digo-lhe.

Segue o seu caminho de passos pequeninos e cansados. E eu sigo o meu caminho e sinto que foram aqueles passos pequeninos e cansados, aquele sorriso de ternura e aquela mão, que apertou tanto a minha, que me trouxeram o amor hoje.

Eu sigo o meu caminho e sei... Hoje vi Deus. Ele sorriu-me… e eu dei-lhe a mão.