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menina dos abraços

Um abraço. O meu lugar. O (meu) melhor lugar do mundo.

menina dos abraços

Um abraço. O meu lugar. O (meu) melhor lugar do mundo.

se eles soubessem.

há 6 anos que me dizem que já não estás aqui. se eles soubessem... se eles soubessem que ainda há dias em que o teu abraço vem (re)visitar-me a memória, os sentidos, o coração. se eles soubessem que ainda há dias em que pareço saber ouvir o teu riso ao virar as esquinas das ruas deste mundo que dizem já não ser o teu. se eles soubessem que ainda há dias em que quase sinto (re)encontrar os teus olhos, os teus gestos, as tuas expessões noutros corpos que afinal não têm nada de ti. se eles soubessem que ainda há dias em que as minhas mãos se lembram tanto das tuas. se eles soubessem que ainda há dias em que me apertam o coração quando me dizem que já não estás aqui.

o coração nunca se esquece.

acordar com o coração apertado, há dias assim. o telefone toca e cativa-me um sorriso. hoje é dia de matar saudades. e que saudades. o menino dos meus olhos (e do meu coração) vem abraçar-me o dia, o sorriso, o coração. quando chega, já vem a sorrir. estende-me os bracinhos - "quero colinho" - e abraça-me. há abraços que, sendo pequeninos, são maiores que o mundo. antes de dormir aconchega-se no meu ombro e pede-me as festinhas que foram sempre o nosso ritual nos seus primeiros meses de vida, como quem me ensina que, mesmo que o tempo nos faça esquecer estes pequeninos rituais que ficaram distantes, o coração nunca se esquece. lembro-me de acordar com o coração apertado. não importa mais. o único aperto no meu coração agora é este abraço de ternura que não há tempo que saiba desenlaçar.

dizem que o amor não cura o mundo. e eu não acredito.

dizem que sou tonta, uma sonhadora, que o amor não cura o mundo. e eu não acredito. a minha mãe diz-me que sou dela, enquanto me puxa para si e me ensina, sem falar, que o seu colo, que me salva do mundo inteiro, está sempre à minha espera. e o mundo é mais bonito nesse momento. o homem mais pequenino do meu coração chama por mim, a esticar-me os bracinhos, com o sorriso a brilhar-lhe dentro dos olhos. e o mundo é mais bonito nesse momento. saio à rua e, às vezes, sou brindada com sorrisos desconhecidos. e outros conhecidos. sorrio de volta, sabendo que há dias que mudam com um sorriso. e o mundo é mais bonito nesse momento. olho para o céu cheio de lua e de estrelas e, nesses instantes, a imortalidade acontece. e o mundo é mais bonito nesse momento. há pessoas que me mostram o lado frio, que dói, do mundo. e depois há pessoas que me entram no coração como quem entra em casa. como quem me sabe e me sente mais além. além do que se vê, além do que se diz. há pessoas que, com palavras e silêncios, com sorrisos e olhares, com gestos e cumplicidade, me cativam o coração para sempre. e o mundo é mais bonito nesse momento. um abraço. um, sempre, tão simples abraço. um abraço e sentir que posso morar nesse abraço para sempre. e o mundo é mais bonito nesse momento. há momentos assim, em que vemos o mundo mais bonito de todos os mundos, mesmo e até de olhos fechados. dizem que o amor não cura o mundo. e eu não acredito.

Sabes quando dois corações se reconhecem?

Caminho até à porta e, a cada passo, o compasso do meu coração acelera. Fortifica-se. Sabes quando caminhas para o abraço esperado? Aproximo-me da porta e vejo-a. Aquela que me tatuou sorrisos no coração nos meus primeiros passos. Nos primeiros de todos. Aquela que me tatuou o coração. Porque o leu, desde a primeira vez. E me pegou (e ao meu coração) ao colo tantas vezes. E me ajudou a desenhá-lo bonito. Para depois ele poder continuar a desenhar-se no resto dos meus passos. Quem nos sabe assim, desde a primeira vez, sabe-nos para sempre. Porque nos sabe o coração. Vejo-a. E é aqui que deixo de conseguir ver o que quer que seja, para além daqueles olhos. Para além daquele sorriso que me está tatuado no coração há 18 anos. Não existe mais nada agora. Agora o mundo resume-se a este momento imortal. Quando aqueles olhos me encontram, reconhecem-me, sabem-me. Sabes quando dois corações se reconhecem? As lágrimas aparecem, porque a explosão do que se sente não nos cabe dentro do peito. Os nossos braços (e os nossos corações) abrem-se e este é o abraço que conta uma das histórias mais bonitas do mundo. É o abraço que funde as saudades de 16 anos, um amor de 18 anos. É o abraço que, há 18 anos, foi colo. E que agora, 18 anos depois, sabe tanto a colo também. Abraço-a como quem regressa a casa. Porque casa é sempre onde o coração está. Abraça-me tão forte. Sabes quando abraças as tuas pessoas e sentes que podes morar (e que cabes) nesses abraços para sempre? Abraça-me tão forte. Não nos largamos mais. As nossas mãos procuram-se, encontram-se, tocam-se, dão-se. (re)Encontram o laço forte que, no fundo, nunca se desenlaçou. Que nem mil anos nem mil distâncias conseguem desenlaçar. Sabes quando as mãos se abraçam e nunca mais se largam? É aqui que percebo que há mais pessoas à nossa volta. Sorriem, connosco. Como quem se deixa encantar e inundar com a beleza desta história. Como quem vê o abraço que uniu os nossos corações há 18 anos e que nos trouxe de volta uma à outra. Como quem sente o amor que está dentro dos nossos olhos, do nosso abraço forte, das nossas mãos que não se largam. Um amor que conta uma das histórias mais bonitas do mundo. - Minha querida. - Diz-me, enquanto me abraça tão forte. - Cuida de ti, está bem? - Digo-lhe, enquanto o meu coração segreda ao seu um gosto tanto de ti. Um pedacinho do meu coração ficou naqueles olhos, naquele abraço, naquelas mãos. O resto vem comigo, a sorrir. São estes os momentos mais felizes da nossa vida. Os momentos que se imortalizam, porque nos enchem e nos abraçam e nos cativam o coração para sempre.

e assim, como não hei-de sorrir todos os dias?

aqueles olhos muito abertos, gigantes e imensos de amor, olham-me como sempre. como desde que me lembro. as mãos já estão a segurar-me bem forte e a puxar-me para si, enquanto me dá um beijinho. - amor tão grande por ti. - segreda-me ao ouvido, em palavras quase sumidas, com aquela voz imensa de ternura de 87 anos, enquanto continua a segurar-me forte e a puxar-me para si, para que eu o oiça bem. - e tu também por mim. coração tão bom. sabes que a gente quando chega a esta idade precisa mais de amor. enche-me e abraça-me (tanto) o coração. e isto chega-me, para fazer do meu dia (e do meu coração) um sorriso.

não tenhas medo, a vida só quer que tu sejas feliz

Faço a minha viagem de autocarro, o lugar ao meu lado está vazio. Até agora. Ela entra no autocarro, apressada. Provavelmente uns anos mais velha do que eu, mas não muitos. Olho-lhe para os olhos verdes, mas vermelhos das lágrimas que já caíram, das que ainda estão à vista e das que ainda estão por cair, a qualquer momento. Procura um lugar para se sentar, apressada. Quando, provavelmente, a única coisa que procura é um lugar que a abrace. Que a abrigue. Onde não tenha que estar no meio destas pessoas todas. Onde não tenha outros olhos a olhar-lhe para os olhos verdes, mas vermelhos das lágrimas que já caíram, das que ainda estão à vista e das que ainda estão por cair, a qualquer momento. Onde não tenha que procurar um lugar para se sentar, apressada. Senta-se ao meu lado. Respira fundo. Respira tão forte. Eu pego no meu bloco de post-it’s e na minha caneta. Está quase a chegar a minha paragem. Os lugares do outro lado do corredor ficam vazios e ela levanta-se e vai para lá, prefere ficar sozinha. Senta-se e baixa a cabeça, apoia-a nas mãos, no colo. Continua a respirar tão forte. Chega a minha paragem. Levanto-me, fico ao lado dela por instantes. Hesito, mas prefiro arriscar. Toco-lhe no braço, ela olha-me. Sorrio-lhe e dou-lhe o post-it. Ela recebe-o. Não dizemos nada. Eu vou até à porta. "Não tenhas medo, a vida só quer que tu sejas feliz", diz-lhe o post-it, com um sorriso e com letra apressada. No instante em que saio, olho para ela. Ela já está a olhar-me. Sorrio-lhe, ela sorri-me. Não dizemos nada. Nem precisamos dizer. Eu saio. Um pedacinho do meu coração está naquele post-it. O resto vem comigo, mais cheio.

momentos

Saio do metro, espero que a confusão de gente desça as escadas primeiro, não tenho pressa. No meio da espera, olho em frente e tenho uns olhos demorados em mim. Quando eu os encontro, sou brindada com um sorriso. Sem perceber muito bem se é para mim ou se é engano, vejo aquele sorriso simpático dirigir-se a mim no mesmo instante. Não dou um passo sequer. Fico à espera dele, enquanto espero que a confusão de gente desça as escadas primeiro, pois não tenho pressa. E sem perceber muito bem se aquele sorriso é para mim ou se é engano. É para mim. Percebo-o no instante em que oiço a primeira pergunta que a senhora me faz. – A menina é aquela menina dos abraços, não é? – Há momentos em que as palavras me fogem. Sorrio-lhe. Sorrio-lhe tanto. E ela parece não precisar das palavras, isto chega-lhe. – Estava aqui a olhar para si, bem me parecia que era a menina. Reconheci-a lá daquele sítio e daquelas fotografias no facebook, sabe? – Diz-me, sem deixar de sorrir. – Acho que sim. – São as poucas palavras que consigo dizer-lhe, antes de ela conseguir roubar-me um sorriso ainda maior. – Então olhe, dê cá um abraço. – Diz-me, já a puxar-me para si. Dá-me um abraço, volta a sorrir-me, deseja-me boa tarde e desce as escadas, no meio da confusão de gente. Parece ter mais pressa do que eu. Eu? Eu espero que a confusão de gente desça as escadas primeiro, não tenho pressa. E a seguir desço-as eu, com calma. E de coração a sorrir.

Enquanto o sorriso e os olhos lhe obedecerem ao coração, não precisa de muito mais.

Metro, Cidade Universitária.

Sento-me enquanto espero e olho e observo à volta, como sempre.

Passos pequeninos e cansados, não menos de 70 anos, provavelmente não mais de 80. Olha-me sem abrandar aqueles passos pequeninos e cansados, aproxima-se de mim, meio confusa, mas já a sorrir-me. Pergunta-me se está no sentido certo. - É que sabe, menina, lá fora, na rua, é mais fácil. Aqui dentro é confuso. Tem muitas linhas e muitas pessoas cheias de pressa. - São muitas mais as pessoas do que as linhas, penso. Sorrio-lhe. - Sim, está no sentido certo. Pode entrar comigo e sai já na estação seguinte.

Espera junto de mim, em silêncio. Mas continua com o sorriso doce que me abraça sempre que o olho para fugir à pressa das pessoas que nos rodeiam. O metro chega. Levanta-se e olha-me de novo sem abrandar aqueles passos pequeninos e cansados, aproxima-se de mim e continua a sorrir-me.

- A menina dá-me a mãozinha para eu entrar consigo? É que sabe, menina, as pernas já não me obedecem como antes.

Sorrio-lhe. Dou-lhe a mão e caminhamos as duas em direcção ao metro. Enquanto caminhamos, aperta-me a mão. Tanto. Treme, mas aperta-ma forte. Como se toda a segurança que precisa para aqueles passos pequeninos e cansados estivesse ali, na mão que apertava tanto. Tanto. Passos pequeninos e cansados, mas eu não tenho pressa. É que a pressa sufoca corações, penso.

Entramos no metro e eu sugiro que se sente. Não quer. O tempo de viagem é curto, vai sair já na estação seguinte e custa-lhe mais sentar-se e ter que se levantar dois minutos depois. - É que sabe, menina, as pernas já não me obedecem como antes. - Enquanto o sorriso e os olhos lhe obedecerem ao coração, não precisa de muito mais. E enquanto a sua mão estiver a apertar tanto a minha, eu também não preciso de muito mais, penso. Não me larga a mão. Faz aqueles dois minutos de viagem junto de mim, a apertar-me a mão. Sempre sem a largar, aperta-ma tanto.

Campo Grande, chegamos ao seu destino. Olha-me de novo a sorrir-me, ainda a apertar-me a mão.

- Obrigada, menina. Deus a abençoe, menina. Que tenha sempre muito amor toda a vida e que lhe cuidem muito bem do coração.

Sorrio-lhe e as palavras fogem-me. Enquanto ela sai devagarinho, aperto-lhe, em resposta, a mão que treme e que ainda aperta tanto a minha. Olha-me de novo a sorrir-me e larga-me a mão apenas quando já está do lado de fora.

- Obrigada eu. - digo.

Segue o seu caminho de passos pequeninos e cansados, é que as pernas já não lhe obedecem como antes. Mas enquanto o sorriso e os olhos lhe obedecerem ao coração, não precisa de muito mais, penso enquanto sigo viagem. Porque foram aqueles passos pequeninos e cansados e aquele sempre sorriso doce que me trouxeram o sol hoje. E que, enquanto a sua mão apertou tanto a minha, me abraçaram para fugir à pressa das pessoas que nos rodeiam. É que a pressa sufoca corações, penso.

momentos imortais

são os olhos. são sempre aqueles olhos que se abrem tanto, gigantes, para olhar tanto dentro dos meus sempre que me vêem. são as mãos. são sempre aquelas mãos que apertam tanto as minhas dentro, forte. são as palavras. são, quando ditas, aquelas palavras, soltas em breves instantes, quase sumidas, ao meu ouvido - senhora doutora. - sorrio em resposta - tens amor dentro dos teus olhos- em breves instantes, enquanto aqueles olhos se abrem tanto, gigantes, para olhar tanto dentro dos meus e aquelas mãos, sempre aquelas mãos de doçura de mais de 80 anos, apertam tanto as minhas dentro, forte.