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menina dos abraços

Um abraço. O meu lugar. O (meu) melhor lugar do mundo.

menina dos abraços

Um abraço. O meu lugar. O (meu) melhor lugar do mundo.

Enquanto o sorriso e os olhos lhe obedecerem ao coração, não precisa de muito mais.

Metro, Cidade Universitária.

Sento-me enquanto espero e olho e observo à volta, como sempre.

Passos pequeninos e cansados, não menos de 70 anos, provavelmente não mais de 80. Olha-me sem abrandar aqueles passos pequeninos e cansados, aproxima-se de mim, meio confusa, mas já a sorrir-me. Pergunta-me se está no sentido certo. - É que sabe, menina, lá fora, na rua, é mais fácil. Aqui dentro é confuso. Tem muitas linhas e muitas pessoas cheias de pressa. - São muitas mais as pessoas do que as linhas, penso. Sorrio-lhe. - Sim, está no sentido certo. Pode entrar comigo e sai já na estação seguinte.

Espera junto de mim, em silêncio. Mas continua com o sorriso doce que me abraça sempre que o olho para fugir à pressa das pessoas que nos rodeiam. O metro chega. Levanta-se e olha-me de novo sem abrandar aqueles passos pequeninos e cansados, aproxima-se de mim e continua a sorrir-me.

- A menina dá-me a mãozinha para eu entrar consigo? É que sabe, menina, as pernas já não me obedecem como antes.

Sorrio-lhe. Dou-lhe a mão e caminhamos as duas em direcção ao metro. Enquanto caminhamos, aperta-me a mão. Tanto. Treme, mas aperta-ma forte. Como se toda a segurança que precisa para aqueles passos pequeninos e cansados estivesse ali, na mão que apertava tanto. Tanto. Passos pequeninos e cansados, mas eu não tenho pressa. É que a pressa sufoca corações, penso.

Entramos no metro e eu sugiro que se sente. Não quer. O tempo de viagem é curto, vai sair já na estação seguinte e custa-lhe mais sentar-se e ter que se levantar dois minutos depois. - É que sabe, menina, as pernas já não me obedecem como antes. - Enquanto o sorriso e os olhos lhe obedecerem ao coração, não precisa de muito mais. E enquanto a sua mão estiver a apertar tanto a minha, eu também não preciso de muito mais, penso. Não me larga a mão. Faz aqueles dois minutos de viagem junto de mim, a apertar-me a mão. Sempre sem a largar, aperta-ma tanto.

Campo Grande, chegamos ao seu destino. Olha-me de novo a sorrir-me, ainda a apertar-me a mão.

- Obrigada, menina. Deus a abençoe, menina. Que tenha sempre muito amor toda a vida e que lhe cuidem muito bem do coração.

Sorrio-lhe e as palavras fogem-me. Enquanto ela sai devagarinho, aperto-lhe, em resposta, a mão que treme e que ainda aperta tanto a minha. Olha-me de novo a sorrir-me e larga-me a mão apenas quando já está do lado de fora.

- Obrigada eu. - digo.

Segue o seu caminho de passos pequeninos e cansados, é que as pernas já não lhe obedecem como antes. Mas enquanto o sorriso e os olhos lhe obedecerem ao coração, não precisa de muito mais, penso enquanto sigo viagem. Porque foram aqueles passos pequeninos e cansados e aquele sempre sorriso doce que me trouxeram o sol hoje. E que, enquanto a sua mão apertou tanto a minha, me abraçaram para fugir à pressa das pessoas que nos rodeiam. É que a pressa sufoca corações, penso.